O que uma xícara de café ou chá sem açúcar tem a ver com a prevenção do câncer? Mais do que você imagina. Uma análise abrangente conduzida com dados de aproximadamente 189 mil participantes do Biobank do Reino Unido — uma das maiores bases de informação sobre saúde do mundo — sugere que o hábito de tomar essas bebidas sem adicionar açúcar ou adoçantes artificiais pode estar ligado a uma queda significativa nos casos e mortes pela doença.
Publicado no periódico The Journal of Nutrition, o trabalho reforça o papel que pequenas escolhas diárias podem ter na proteção do organismo a longo prazo. Os pesquisadores utilizaram informações do UK Biobank, um banco de dados que reúne registros de voluntários com idades entre 37 e 73 anos. Cada participante informou seu próprio consumo de bebidas, considerando como uma porção o equivalente a 250 ml (cerca de 8,5 onças líquidas).
Foram analisados diferentes tipos: café, chá, refrigerantes com açúcar ou adoçantes artificiais, sucos de frutas, leite e bebidas à base de leite. O acompanhamento dos voluntários durou, em média, nove anos. Ao longo desse período, os cientistas monitoraram quem recebeu diagnóstico de câncer e quem faleceu em decorrência da doença.
Para garantir que os resultados refletissem o efeito real das bebidas — e não de outros hábitos —, a equipe ajustou estatisticamente fatores como idade, sexo, tabagismo, prática de atividades físicas e qualidade geral da alimentação. Esse tipo de cuidado metodológico é comum em grandes análises observacionais e ajuda a isolar, com mais precisão, o impacto das escolhas relacionadas ao que se bebe no dia a dia.
Os números que chamaram a atenção dos cientistas
Os achados mais expressivos envolveram quem consumia café sem açúcar. Pessoas que bebiam mais de duas xícaras por dia apresentaram 5% menos chances de desenvolver câncer e 11% menos risco de morrer pela doença, em comparação com aquelas que não consumiam a bebida. Os números foram ainda mais animadores para os apreciadores de chá sem adoçantes: redução de 6% na incidência de tumores e impressionantes 16% na taxa de mortalidade por câncer.
Um ponto crucial destacado pelos autores, porém, é que esses benefícios praticamente desapareciam quando os participantes adicionavam açúcar ou adoçantes artificiais às bebidas. Ou seja, o efeito protetor parece estar diretamente relacionado à ausência desses ingredientes, e não apenas à presença do café ou do chá em si.
Por que o tipo de adoçante faz tanta diferença
A explicação, segundo os pesquisadores, está nos compostos bioativos naturalmente presentes no café e no chá. Substâncias como o ácido clorogênico (encontrado no café), as catequinas (abundantes no chá-verde) e os flavonoides (presentes em ambas as bebidas) têm propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias reconhecidas pela ciência. Essas moléculas ajudam a combater o estresse oxidativo — um processo celular ligado ao envelhecimento e ao surgimento de diversos tipos de câncer.
O problema é que o açúcar adicionado, ao ser rapidamente absorvido pelo organismo, pode desencadear respostas inflamatórias e prejudicar exatamente os mecanismos que os compostos do café e do chá tentam proteger. Estudos anteriores já apontavam que o açúcar consumido na forma líquida (bebidas) representa um risco maior para a saúde do que o açúcar presente em alimentos sólidos, justamente por sua absorção mais rápida e pelo impacto direto em marcadores inflamatórios.
O que isso significa na prática para o seu dia a dia
Se você já toma café ou chá regularmente, a mensagem principal é clara: vale a pena evitar o açúcar e os adoçantes artificiais. Para quem ainda não tem esse hábito, os resultados sugerem que introduzir uma ou duas xícaras diárias — sempre sem adoçar — pode ser uma estratégia de baixo custo e de fácil adoção para a promoção da saúde.
Os pesquisadores também aproveitaram os dados para avaliar outras bebidas. Sucos de fruta puros, por exemplo, mostraram um leve efeito protetor, mas os autores alertam que seu alto teor de açúcar concentrado e a ausência de fibras (presentes na fruta inteira) limitam os benefícios. A recomendação, portanto, é preferir a fruta inteira ao suco. Já refrigerantes e outras bebidas açucaradas foram associados a um risco maior de câncer — especialmente o de pulmão —, o que reforça orientações já consolidadas por organizações de saúde ao redor do mundo.
Como se trata de um estudo observacional, os cientistas fazem questão de lembrar que os resultados apontam associação, e não causa direta. Em outras palavras: beber café ou chá sem açúcar não é uma garantia contra o câncer, mas as evidências indicam que esse hábito pode fazer parte de um estilo de vida mais protetor. São necessárias mais pesquisas experimentais para confirmar definitivamente a relação de causa e efeito.
Conclusão: pequenas escolhas, grandes diferenças
O grande diferencial desse estudo está em mostrar que o benefício do café e do chá contra o câncer não vem apenas das bebidas em si, mas principalmente da forma como as consumimos. Adicionar açúcar ou adoçantes artificiais anula o efeito protetor observado, o que coloca o foco não no que se bebe, mas em como se bebe.
Para quem busca reduzir riscos sem grandes reviravoltas na rotina, trocar o café adoçado pelo puro — ou o chá doce pelo amargo — pode ser um passo simples e eficaz. Os números da pesquisa, envolvendo quase 200 mil pessoas e nove anos de acompanhamento, dão consistência a essa recomendação. E, como sempre na nutrição, o conjunto da dieta e dos hábitos de vida continua sendo o que realmente faz a diferença.
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