Um novo estudo brasileiro publicado na revista científica Molecular and Cellular Endocrinology jogou luz sobre um dos mistérios mais desafiadores da oncologia moderna.
A pesquisa identificou o papel central da proteína periostina e das células pancreáticas estreladas na capacidade do tumor de infiltrar nervos e se espalhar rapidamente.
O trabalho foi conduzido por especialistas do CRID (Centro de Pesquisa em Doenças Inflamatórias), com suporte da Fapesp, além da participação de equipes do Hospital Israelita Albert Einstein e da Universidade de São Paulo (USP).
Por que o adenocarcinoma pancreático é tão letal?
O tipo mais frequente é o adenocarcinoma pancreático, que responde por cerca de 90% dos diagnósticos.
Embora não esteja no topo das estatísticas de incidência, sua taxa de mortalidade praticamente empata com o número de novos casos.
No cenário global, são cerca de 510 mil novos registros por ano, acompanhados de um volume semelhante de óbitos.
No Brasil, dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca) apontam para 11 mil novos casos anuais e cerca de 13 mil mortes.
Com uma sobrevida em cinco anos na faixa de 10%, a busca por novas frentes terapêuticas é uma urgência médica inegável.
Como funciona a invasão perineural?
Um dos maiores obstáculos no tratamento é a chamada invasão perineural.
Nesse processo, as células malignas infiltram as fibras nervosas, avançando por elas.
Isso não apenas causa dores intensas aos pacientes, mas também abre rotas fáceis para que o tumor alcance outras partes do corpo, acelerando as metástases.
Boa parte dos pacientes já exibe essa invasão logo nos primeiros estágios da doença, algo que frequentemente só é descoberto após a cirurgia de remoção.
O papel da periostina e do microambiente tumoral
O estudo examinou 24 amostras de tecidos afetados utilizando ferramentas avançadas de análise genética simultânea.
Os cientistas perceberam que o estroma, que forma o tecido de sustentação ao redor da lesão, tem um papel ativo na progressão do problema.
As células estreladas do pâncreas passam a secretar grandes volumes de periostina.
Essa proteína altera a matriz extracelular, abrindo verdadeiros corredores que guiam as células cancerígenas diretamente para os nervos.
Além disso, ocorre uma forte fibrose local, criando um ambiente rígido que dificulta a ação de medicamentos tradicionais.
Novos caminhos para terapias direcionadas
Diante desse cenário, a periostina desponta como um alvo terapêutico promissor.
Estratégias capazes de bloquear essa proteína ou neutralizar as células que a produzem podem conter a expansão do tumor.
Ensaios clínicos envolvendo outros tipos de tumores já testam anticorpos direcionados contra essa molécula.
Se a eficácia for comprovada no pâncreas, o tratamento poderá caminhar rumo a uma abordagem muito mais personalizada e assertiva.
Perspectivas para o futuro da oncologia
Os autores do estudo apontam que o próximo desafio é traduzir essas descobertas em aplicações clínicas preventivas.
A tendência é que a medicina oncológica do futuro dependa cada vez menos de protocolos genéricos e cada vez mais do perfil molecular específico de cada paciente.