O jejum prolongado voltou ao centro das discussões científicas após um novo estudo identificar mudanças profundas no organismo humano depois de cerca de 72 horas sem ingestão de alimentos. A pesquisa acompanhou voluntários que passaram sete dias consumindo apenas água e mostrou que o corpo ativa mecanismos biológicos muito além da simples perda de peso.
O estudo foi conduzido por cientistas da Queen Mary University of London em parceria com a Escola Norueguesa de Ciências do Esporte. Durante sete dias, 12 participantes saudáveis foram monitorados enquanto realizavam jejum completo apenas com água.
Os pesquisadores analisaram aproximadamente 3 mil proteínas presentes no sangue dos voluntários utilizando técnicas avançadas de proteômica. Segundo os resultados publicados na revista científica Nature Metabolism, as alterações mais importantes começaram a surgir somente após o terceiro dia de restrição alimentar total.
Entre as principais mudanças observadas estavam modificações em proteínas relacionadas ao metabolismo, ao sistema imunológico e até ao funcionamento cerebral.
Corpo muda a forma de produzir energia
Nos primeiros dias do jejum, o organismo deixa de usar glicose como principal fonte de energia e passa a utilizar gordura corporal. Esse processo já era conhecido, mas o novo estudo identificou que as alterações moleculares mais complexas acontecem depois dessa transição metabólica.
Os participantes perderam em média 5,7 quilos ao longo do experimento. Grande parte do peso inicial estava relacionada à perda de água, glicogênio e sódio. Já a redução de gordura corporal permaneceu mesmo após a fase de realimentação.
Os cientistas também observaram que boa parte da massa magra perdida foi recuperada após os participantes voltarem a se alimentar normalmente.
Mudanças celulares chamaram atenção dos cientistas
Mais de um terço das proteínas analisadas apresentou alterações significativas durante o jejum. Muitas delas estavam ligadas à matriz extracelular, estrutura responsável por sustentar tecidos do corpo, incluindo neurônios.
Segundo os pesquisadores, isso reforça a hipótese de que períodos prolongados sem alimentação podem ativar processos de renovação celular, como a autofagia, mecanismo em que o organismo remove componentes celulares danificados.
Possíveis benefícios investigados pela ciência
Os resultados fortaleceram o interesse científico sobre os impactos do jejum no envelhecimento, inflamação e saúde metabólica. Os pesquisadores identificaram possíveis relações entre as mudanças proteicas e vias associadas à redução de riscos de doenças.
Outros estudos recentes também têm associado estratégias de jejum à melhora da sensibilidade à insulina, ao controle da glicemia e ao metabolismo de gorduras.
Apesar disso, os próprios autores destacam que ainda são necessárias pesquisas maiores para confirmar efeitos de longo prazo e entender quais benefícios realmente podem ser aplicados de forma segura na prática clínica.
Jejum prolongado também apresenta riscos
Os cientistas alertaram que jejuns longos não devem ser realizados sem acompanhamento médico. Durante períodos extensos sem alimentação, podem surgir efeitos como desidratação, tontura, desequilíbrio eletrolítico, fadiga e perda muscular.
Pessoas com diabetes, doenças cardiovasculares, distúrbios alimentares ou outras condições de saúde precisam de atenção ainda maior. Em alguns casos, o jejum prolongado pode trazer riscos importantes ao organismo.
Pesquisas anteriores também identificaram aumento temporário de marcadores inflamatórios e alterações relacionadas à coagulação sanguínea durante jejuns extremos.
O que isso pode significar para o futuro da medicina
Os pesquisadores acreditam que o mapeamento dessas mudanças biológicas poderá ajudar no desenvolvimento de tratamentos capazes de reproduzir alguns efeitos do jejum sem exigir longos períodos sem alimentação.
A ideia é compreender quais mecanismos ativados pelo organismo poderiam ser utilizados futuramente em terapias voltadas ao metabolismo, envelhecimento saudável e doenças inflamatórias. Embora o tema desperte interesse crescente, especialistas reforçam que o jejum prolongado ainda precisa ser estudado com cautela antes de ser adotado como prática ampla de saúde.
O novo estudo revelou que o corpo humano passa por mudanças metabólicas e celulares muito mais complexas do que se imaginava durante jejuns prolongados. As descobertas ajudam a entender como o organismo reage à ausência total de calorias e abrem espaço para futuras pesquisas sobre metabolismo, regeneração celular e saúde cerebral.
Ao mesmo tempo, os pesquisadores reforçam que jejuns longos não devem ser vistos como solução simples para emagrecimento ou saúde, principalmente sem orientação profissional adequada.