Revisão científica alerta para danos multiorgânicos causados pelo inseticida clorpirifos

Estudo com 300 pesquisas revela que inseticida amplamente usado na agricultura afeta múltiplos sistemas do corpo humano.

Revisão científica alerta para danos multiorgânicos causados pelo inseticida clorpirifos

Uma revisão científica recente que analisou cerca de 300 estudos internacionais reacendeu a preocupação global sobre os efeitos do inseticida clorpirifós. O trabalho aponta que a substância não afeta apenas o sistema nervoso, mas pode atuar como um agente tóxico em múltiplos sistemas do organismo humano.

Publicado em abril no International Journal of Molecular Sciences, o levantamento reuniu cerca de 300 pesquisas e descreve o clorpirifós como um “toxicante multissistêmico”, capaz de provocar impactos que vão além da neurotoxicidade tradicionalmente associada ao composto.

O clorpirifós foi introduzido em 1965 e se tornou amplamente utilizado na agricultura, especialmente em culturas como maçãs, soja e morango. Apesar de ter sido proibido para uso doméstico nos Estados Unidos desde 2001, ele continuou presente em aplicações agrícolas por décadas.

O clorpirifos é um inseticida amplamente utilizado no Brasil, com mais de 10 mil toneladas vendidas em 2019. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ainda não iniciou a reavaliação do registro do clorpirifos, o que sugere que o uso contínuo do produto pode continuar por anos. 

Segundo informações regulatórias, o inseticida já foi proibido ou restringido em mais de 40 países, incluindo a União Europeia. Ainda assim, permanece autorizado em determinadas culturas nos Estados Unidos, mesmo após sucessivas revisões e disputas judiciais envolvendo a Agência de Proteção Ambiental (EPA).

Em 2021, a EPA chegou a revogar tolerâncias do composto em alimentos, o que na prática equivaleria a uma proibição. No entanto, uma decisão judicial em 2023 reverteu essa medida, permitindo novamente seu uso em lavouras, salvo restrições estaduais.

Evidências científicas de danos além do sistema nervoso

De acordo com a revisão, o clorpirifós pode afetar diferentes partes do organismo humano, incluindo fígado, sistema hormonal, microbiota intestinal, músculos, ossos e órgãos reprodutivos. Os mecanismos envolvidos incluem estresse oxidativo, inflamação e alterações epigenéticas.

Os estudos analisados também associam a substância a danos no DNA, disfunções mitocondriais e alterações em vias hormonais ligadas à tireoide, estrogênio e testosterona. Esses efeitos sugerem impactos sistêmicos mais amplos do que se acreditava anteriormente.

Desenvolvimento cerebral e alterações metabólicas

Pesquisas adicionais indicam que o clorpirifós pode induzir estresse oxidativo em células relacionadas à formação de mielina, estrutura essencial para a comunicação entre neurônios. Outros estudos experimentais em animais apontam alterações metabólicas e bioquímicas no fígado durante fases iniciais do desenvolvimento após exposição ao composto.

As preocupações crescentes sobre seus efeitos na saúde humana, incluindo potenciais danos neurológicos e aumento do risco de doenças como a doença de Parkinson. Estudos mostram que a exposição ao clorpirifos pode afetar o desenvolvimento infantil e a saúde mental, levando a alterações no sistema nervoso e problemas cognitivos.

Grupos mais vulneráveis e efeitos em humanos

Crianças e gestantes estão entre os grupos mais sensíveis, devido ao desenvolvimento incompleto dos sistemas de detoxificação e à maior proporção de exposição em relação ao peso corporal. Estudos longitudinais em regiões agrícolas indicam associações entre exposição pré-natal e redução de desempenho cognitivo, incluindo menor QI e déficits de atenção.

Outras pesquisas também relacionam a exposição durante a gestação a dificuldades no desenvolvimento de linguagem em crianças pequenas. Em ambientes ocupacionais, trabalhadores rurais representam o grupo mais exposto, com maior risco de contato direto com o pesticida.

Além disso, estudos observacionais associam a exposição prolongada a pesticidas organofosforados a um aumento no risco de doenças neurodegenerativas, incluindo Parkinson.

Os possíveis impactos para a saúde pública

A revisão científica também levanta críticas a estudos financiados pela indústria que influenciaram limites de exposição ao longo das décadas. Os autores defendem uma reavaliação independente dos dados toxicológicos e apontam que testes atuais podem não capturar efeitos em baixas doses durante fases críticas do desenvolvimento humano.

Entre as recomendações estão o fortalecimento de medidas de proteção para crianças e gestantes, ampliação do monitoramento biológico e incentivo a alternativas mais seguras para controle de pragas na agricultura.

O debate regulatório segue em aberto, enquanto evidências acumuladas reforçam a necessidade de revisão contínua dos riscos associados ao uso do clorpirifós na cadeia alimentar.

Conclusão

A crescente quantidade de estudos analisados sugere que o clorpirifós pode ter impactos mais amplos do que a neurotoxicidade inicialmente reconhecida. Diante das incertezas e da persistência de seu uso em parte da agricultura, especialistas defendem uma abordagem mais cautelosa na regulamentação e na proteção de populações vulneráveis.

Como medida prática de redução de exposição a resíduos de agrotóxicos, pode ser útil priorizar alimentos orgânicos certificados e o uso de filtros de água adequados no dia a dia.

Sugestão de produto: Kit de alimentos orgânicos certificados ou filtro de água com carvão ativado para reduzir possíveis resíduos químicos na rotina alimentar.