
A depressão tem relação com a reativação de doenças autoimunes, com dificuldade de controle da atividade inflamatória na doença e é mais encontrada em pessoas portadoras de doenças autoimunes. Se sofre de uma doença autoimune, como artrite reumatoide, lúpus ou psoríase, poderá ter um risco acrescido de desenvolver depressão, ansiedade ou outras perturbações do foro mental.
Um estudo sem precedentes, envolvendo mais de 1,5 milhão de pessoas no Reino Unido, trouxe à tona uma ligação preocupante entre doenças autoimunes e problemas de saúde mental. A pesquisa, publicada recentemente na revista BMJ Mental Health , revelou que indivíduos com condições como artrite reumatóide, lúpus e doença inflamatória intestinal possuem quase o dobro do risco de desenvolver depressão, ansiedade e transtorno bipolar em comparação com a população geral.
O estudo analisou dados do programa britânico Our Future Health e constatou que 28,8% das pessoas com doenças autoimunes sofrem de algum distúrbio afetivo, contra apenas 17,9% da população sem essas condições. Os números são ainda mais expressivos quando detalhados:
- Depressão : afeta 25,5% dos pacientes autoimunes, contra 15,2% da média populacional.
- Ansiedade : presente em 21,2% dos casos, frente a 12,5% no grupo geral.
- Sintomas atuais de depressão : quase o dobro, com 18,6% entre os pacientes autoimunes e 10,5% na população geral.
As mulheres parecem ser as mais afetadas. Entre elas, 31,6% apresentaram distúrbios mentais, enquanto entre os homens com as mesmas doenças esse índice foi de 20,7%.
Segundo o principal autor da pesquisa, Dr. Arish Mudra Rakshasa-Loots, mesmo após considerar fatores como idade, renda, histórico familiar de transtornos psiquiátricos e isolamento social, as pessoas com doenças autoimunes ainda tinham 48% mais chances de desenvolver problemas emocionais.
A Inflamação Crônica e Seu Impacto no Cérebro
A chave para entender essa relação parece estar na inflamação crônica — característica marcante das doenças autoimunes. Ao utilizar essas condições como modelo para medir níveis elevados de inflamação sistêmica, os pesquisadores notaram um padrão claro: todos os transtornos mentais estudados — depressão, ansiedade e transtorno bipolar — apresentaram um aumento de risco próximo a 49%. Isso sugere que a inflamação não causa uma doença específica, mas sim aumenta a vulnerabilidade geral à saúde mental.
“Ainda não podemos afirmar com certeza os mecanismos exatos por trás dessa relação, mas há fortes indícios de que a inflamação prolongada desempenha um papel central”, explica a Dra. Christina Steyn, coautora do estudo.
Mulheres Têm Maior Risco
A diferença de gênero observada no estudo indica que as mulheres podem ser duplamente afetadas: além de ter maior predisposição genética para doenças autoimunes, seu corpo parece responder de forma mais intensa aos efeitos da inflamação sobre o cérebro. Níveis elevados de citocinas inflamatórias foram encontrados especialmente em mulheres com depressão, indicando uma possível interação hormonal ou imunológica única nelas.
Além disso, o estudo mostrou que pessoas com doenças autoimunes também têm maior probabilidade de ter familiares com histórico de transtornos mentais, sugerindo que fatores genéticos ou ambientais compartilhados podem influenciar tanto o sistema imunológico quanto a saúde psicológica.
Uma Lacuna no Atendimento Médico
Apesar da magnitude desses achados, muitos profissionais de saúde ainda não estão alertando seus pacientes sobre esse risco. A triagem sistemática de saúde mental não é prática comum em consultórios especializados em doenças autoimunes, deixando milhões de pessoas sem diagnóstico precoce ou intervenção adequada.
“Quase três em cada dez pessoas com doenças autoimunes vão desenvolver algum problema significativo de saúde mental. Ignorar isso é negligenciar parte essencial do cuidado”, alertam os autores do estudo, defendendo a inclusão de avaliações psicológicas regulares no acompanhamento clínico desses pacientes, especialmente no caso das mulheres.
Estratégias Naturais Para Apoiar Corpo e Mente
Compreender a conexão entre inflamação e saúde mental abre caminho para estratégias preventivas e complementares ao tratamento tradicional. Algumas abordagens naturais promissoras incluem:
- Alimentação anti-inflamatória : Priorizar alimentos ricos em ômega-3 (como peixes selvagens), antioxidantes (frutas orgânicas) e polifenóis (chás e especiarias como o açafrão).
- Cuidado com o microbioma intestinal : O intestino é fundamental tanto para o sistema imunológico quanto para a produção de neurotransmissores. Alimentos fermentados, fibras prebióticas e probióticos ajudam a manter o equilíbrio.
- Gestão do estresse : Práticas como meditação, respiração consciente e atividade física regular reduzem a resposta inflamatória e melhoram o bem-estar emocional.
- Vitamina D adequada : Essencial para a regulação imunológica e o equilíbrio emocional, sua deficiência é comum em pessoas com doenças autoimunes.
- Qualidade do sono : Dormir mal eleva marcadores inflamatórios e agrava sintomas físicos e psicológicos. Garantir um sono reparador é essencial.
Conclusão
Este estudo é um alerta urgente para a medicina moderna: a saúde física e mental estão profundamente interligadas, e ignorar essa conexão pode custar caro. Integrar a avaliação de saúde mental ao acompanhamento de doenças autoimunes é um passo necessário para oferecer cuidados mais completos e eficazes. Enquanto isso, pequenas mudanças no estilo de vida podem fazer grande diferença na prevenção e manejo de ambos os tipos de condição.
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