E se a principal causa de infartos e derrames não fosse o colesterol, mas sim um processo de coagulação mal resolvido nas paredes das artérias? Essa pergunta, aparentemente simples, desafia décadas de consenso médico e ganha força a partir de pesquisas e análises clínicas como as desenvolvidas pelo médico Malcolm Kendrick, autor de "The Clot Thickens". Sua abordagem propõe um olhar diferente sobre a aterosclerose — e convida a repensar estratégias de prevenção cardiovascular.
Na análise do Dr. Mércola em seu portal, ele relata que uma vez que você entende o processo da doença, também pode entender como tanto a COVID-19 quanto a vacina contra a COVID podem contribuir para a doença cardíaca. Quando perguntado por que ele se interessou tanto por doenças cardíacas, Kendrick responde:
"Quando eu estava me formando como estudante de medicina, a Escócia tinha a maior taxa de doenças cardíacas do mundo. No começo, a resposta para o motivo era: 'Ah, é porque temos uma dieta tão ruim e comemos comida ruim como barras de Mars fritas.'
Então, se você consome gordura saturada demais, essa gordura saturada vira colesterol na corrente sanguínea, e depois é absorvida pelas artérias, formando estreitamentos e espessamentos, o que tudo parece plausível se você não pensar muito.
Mas eu também costumo ir bastante à França, e o que percebi na França é que eles consomem muita gordura saturada. Eles comem mais, na verdade, do que qualquer outra pessoa na Europa, e certamente mais do que na Escócia. Então, [essa hipótese da gordura saturada] certamente não funcionou para os franceses. Eles têm a maior ingestão de gordura saturada da Europa e a menor taxa de doenças cardíacas, e isso tem sido assim há décadas.
Se você considerasse todos os fatores de risco para França e Escócia [como tabagismo, pressão alta e diabetes], então os franceses tinham um risco ligeiramente [maior], segundo o pensamento convencional. Mas, na verdade, eles tinham um quinto [da taxa entre homens com idades pareadas].
Então, pensei, isso é interessante. Não faz muito sentido segundo o que nos dizem. Então, enquanto eu estava na faculdade de medicina, um tutor de cardiologia disse... O LDL não pode atravessar o endotélio. Na época, eu não sabia o que era LDL, nem o que era o endotélio, mas parecia importante.
Ela vinha olhando para a doença cardíaca como um processo diferente há décadas ... Então, acho que foi aí que comecei. Quando você começa a questionar qual é o problema, acaba questionando cada vez mais e começa a pensar: nossa, isso é um absurdo, não é? Toda essa hipótese é um absurdo. Então, comecei a analisar tudo."
A visão convencional atribui ao LDL (colesterol "ruim") o papel central na formação de placas arteriais. No entanto, observações epidemiológicas desafiam essa narrativa: populações com alto consumo de gordura saturada, como a francesa, apresentam taxas historicamente baixas de doenças cardíacas.
Além disso, mecanismos biológicos essenciais permanecem sem explicação satisfatória sob esse modelo — como o fato de partículas de LDL terem dificuldade comprovada para atravessar o endotélio íntegro, a camada interna dos vasos sanguíneos. Essas inconsistências motivaram a busca por alternativas mais coerentes com a fisiologia observada.
A hipótese trombogênica: coágulos como ponto de partida
Proposta originalmente no século XIX e revisitada por pesquisadores contemporâneos, a hipótese trombogênica sugere que a formação recorrente de microcoágulos em áreas de dano endotelial é o evento inicial da aterosclerose. Quando um coágulo se forma em resposta a uma lesão vascular, o organismo inicia um processo de reparo.
Se o dano persiste ou se repete, novos coágulos se acumulam sobre o tecido em cicatrização, formando camadas progressivas — semelhantes a anéis de crescimento em árvores — que, ao longo do tempo, constituem a placa aterosclerótica. O evento agudo (infarto ou AVC) ocorreria quando um novo coágulo se forma sobre uma placa já estabelecida, obstruindo abruptamente o fluxo sanguíneo.
Sabemos que coágulos sanguíneos causam o evento final da doença cardiovascular. Sabemos que coágulos sanguíneos causam o crescimento de placas. Por que você não aceita que coágulos sanguíneos são o que causa a doença cardíaca em primeiro lugar? Porque assim temos um processo do início ao fim, e faz sentido, porque se encaixa no que você pode ver. " ~ Dr. Malcolm Kendrick
O que danifica o endotélio e desencadeia o processo
Se coágulos são a resposta, o que provoca a lesão inicial? Diversos fatores podem comprometer a integridade endotelial: infecções virais (como SARS-CoV-2), tabagismo, níveis elevados de glicose no sangue, metais pesados e pressão arterial cronicamente alta.
Um componente crucial nesse cenário é o glicocálice — uma camada protetora rica em glicoproteínas que reveste as células endoteliais, funcionando como uma barreira "antiaderente" para o sangue. Quando o glicocálice se deteriora, as células subjacentes ficam expostas, aumentando a probabilidade de ativação plaquetária e formação de coágulos.
O que isso significa na prática
Para quem busca proteger a saúde cardiovascular, a mensagem central desloca o foco: em vez de apenas monitorar números de colesterol, vale priorizar a integridade vascular. Estratégias com evidência emergente incluem:
exposição solar moderada para estimular óxido nítrico (vasodilatador natural e protetor endotelial); redução do consumo de óleos vegetais ricos em ácido linoleico, associados ao estresse oxidativo; controle rigoroso da glicemia e da pressão arterial; e manejo do estresse crônico, que eleva cortisol e prejudica mecanismos de reparo vascular.
Suplementos como sulfato de condroitina e MSM têm sido estudados por seu potencial papel na manutenção do glicocálice, embora mais pesquisas sejam necessárias para confirmar eficácia clínica em humanos.
Conclusão
Ciência avança por questionamento, não por dogma. A hipótese trombogênica não invalida todo o conhecimento cardiovascular acumulado, mas propõe um ajuste de perspectiva: talvez a prevenção mais eficaz esteja em preservar a saúde do endotélio e modular a resposta coagulatória, em vez de focar exclusivamente em lipídios circulantes.
Enquanto a pesquisa evolui, medidas baseadas em estilo de vida — alimentação integral, atividade física, sono de qualidade e evitar toxinas conhecidas — permanecem como a base mais sólida para a saúde do coração. No fim, proteger os vasos pode ser tão importante quanto controlar o colesterol.