Os tratamentos oncológicos tradicionais, como a quimioterapia e a radioterapia, continuam sendo pilares fundamentais no combate aos tumores. No entanto, essas intervenções costumam sobrecarregar o organismo, provocando efeitos colaterais severos que prejudicam a alimentação, a fala, a integridade da pele e o sistema nervoso.
Para amenizar esses impactos na rotina dos pacientes, a comunidade médica tem voltado a atenção para abordagens terapêuticas baseadas na aplicação de Fotobiomodulação. Fotobiomodulação (PBM) é uma terapia baseada em luz que utiliza comprimentos de onda específicos para interagir com tecidos do corpo, influenciando a atividade celular sem calor e apoiando a recuperação tanto em ambientes médicos quanto de bem-estar geral.
A relação entre a luz e os organismos vivos é estudada há décadas, mas a aplicação clínica estruturada ganhou um reforço importante recentemente. A Europa deu um passo histórico ao oficializar o primeiro guia de referência voltado para o uso dessa tecnologia no suporte ao tratamento do câncer.
O Primeiro Padrão Clínico Europeu para a Terapia com Luz
Em outubro de 2025, durante o 16º Congresso Nacional de Cuidados de Suporte em Oncologia, realizado na França, a Associação Francesa de Cuidados de Suporte em Oncologia apresentou o documento oficial. O protocolo foi liderado pelo médico Antoine Lemaire, do Hospital Geral de Valenciennes. O principal objetivo da iniciativa é preencher uma lacuna de conhecimento entre os profissionais de saúde e padronizar o atendimento em diferentes centros médicos.
Os efeitos colaterais mais comuns e dolorosos do câncer e de suas terapias incluem a mucosite e a radiodermatite. A primeira consiste em uma inflamação severa e na formação de feridas nas mucosas do trato digestivo, dificultando drasticamente a alimentação e a deglutição. Já a segunda afeta a pele exposta à radiação, gerando desde vermelhidão e ressecamento até feridas abertas, quadros frequentemente observados em pacientes com câncer de mama, de cabeça, pescoço e na região pélvica.
Além dessas complicações principais, o documento técnico aponta o uso da terapia para mitigar uma série de outros sintomas desafiadores. Entre eles estão o linfedema, a boca seca decorrente de danos nas glândulas salivares, a rigidez na mandíbula, a dificuldade para engolir, alterações na voz e no paladar, além de neuropatias e perda de cabelo induzidas por medicamentos citotóxicos.
Como a Luz Atua no Nível Celular
A fotobiomodulação utiliza feixes de luz de baixa intensidade, englobando comprimentos de onda específicos como o vermelho e o infravermelho próximo. Ao contrário de procedimentos térmicos, essa técnica opera por meio de irradiação controlada que estimula diretamente as mitocôndrias, as estruturas responsáveis pela produção de energia dentro das células humanas.
O principal alvo dessa tecnologia é uma enzima chamada citocromo c oxidase, presente na cadeia respiratória celular. Quando essa proteína absorve os fótons de luz vermelha ou infravermelha, ocorre uma aceleração na produção de trifosfato de adenosina, conhecido pela sigla ATP. Esse aumento na disponibilidade de energia impulsiona a regeneração tecidual, reduz a inflamação e otimiza a resposta imunológica das áreas estressadas pelo tratamento oncológico.
Especialistas explicam que diferentes comprimentos de onda possuem capacidades variadas de penetração nos tecidos biológicos. Enquanto a luz vermelha atinge camadas mais superficiais, sendo útil para problemas cutâneos, os comprimentos de onda do infravermelho próximo alcançam músculos, articulações e estruturas mais profundas sem causar danos térmicos.
Desafios e Expansão do Uso Clínico
Apesar do avanço regulatório representado pelo novo protocolo europeu, a adoção ampla da fotobiomodulação ainda enfrenta barreiras significativas no sistema de saúde. O obstáculo mais urgente é a falta de reembolso financeiro dedicado a esse tipo de procedimento nos centros de atendimento, fazendo com que os custos muitas vezes fiquem embutidos em taxas de consulta, o que limita a escalabilidade do suporte.
Outro ponto de atenção levantado por especialistas diz respeito à proliferação de equipamentos de uso doméstico comercializados na internet. Muitos desses dispositivos carecem de certificação de segurança adequada, operam com dosagens incorretas ou emitem comprimentos de onda inadequados que podem comprometer a eficácia do tratamento. Por isso, a orientação médica permanece indispensável para garantir a escolha de aparelhos seguros e parâmetros de dosagem corretos.
Com a consolidação de diretrizes formais na Europa, a expectativa é que mais hospitais integrem a tecnologia de forma protocolar, oferecendo aos pacientes oncológicos uma alternativa segura e baseada em evidências para recuperar a qualidade de vida durante e após as terapias agressivas.
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