
O limiar entre a defesa biológica e o desenvolvimento de armas de destruição em massa é extremamente sutil. No centro desse debate está a chamada Pesquisa de Duplo Uso de Preocupação (DURC, na sigla em inglês), uma modalidade de estudo científico focada na manipulação de patógenos altamente letais.
Sob a justificativa oficial de antecipar ameaças para criar vacinas e tratamentos preventivos, laboratórios ao redor do mundo lidam rotineiramente com agentes biológicos capazes de causar catástrofes globais. No entanto, críticos e documentos sugerem que a linha entre a proteção e a criação de novas ameaças está cada vez mais borrada.
O caso do Ebola aerosolizado em Fort Detrick
Recentemente, revelações políticas trouxeram à tona a gravidade desse cenário. Documentos divulgados pelo senador norte-americano Rand Paul expuseram que, em 2015, o Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID) dos Estados Unidos, em parceria com o Instituto de Pesquisa Médica de Doenças Infecciosas do Exército dos EUA (USAMRIID), realizou testes de alta periculosidade em primatas utilizando o vírus Ebola em formato aerosolizado.
Os resultados foram alarmantes: os experimentos financiados pelo NIAID com Ebola aerosolizado causaram a morte de 80% dos animais que haviam sido previamente imunizados contra a doença.
Embora as instituições militares e de saúde pública norte-americanas argumentem que tais testes cumprem as diretrizes da Convenção sobre Armas Biológicas de 1972 (BWC) por visarem a defesa biológica, as garantias não convencem parte da comunidade científica e de segurança.
O laboratório do exército em Fort Detrick carrega um histórico controverso: foi nessa mesma unidade que trabalhou o pesquisador Bruce Ivins, apontado pelo FBI como o responsável pelos ataques terroristas com cartas contendo esporos de antraz em setembro de 2001.
A lógica por trás do mercado de vacinas de prevenção
A manipulação de patógenos sob o pretexto de criar defesas médicas foi discutida abertamente por importantes cientistas do setor de biotecnologia. Em 2006, o professor Ralph Baric, da Universidade da Carolina do Norte, publicou um estudo avaliando os riscos e benefícios da genômica viral sintética.
Na publicação, Baric apontou que, embora vírus manipulados artificialmente representem armas em potencial contra populações e economias, o domínio dessa tecnologia seria o único caminho para desenvolver vacinas preventivas de forma ágil.
Essa abordagem circular alimenta críticas sobre a existência de um complexo industrial-militar de biodefesa, muitas vezes chamado de "Cartel das Vacinas". O modelo de negócios dessa estrutura baseia-se na premissa de desenvolver e estocar vacinas para doenças infecciosas emergentes ou possíveis ataques biológicos — ameaças que, paradoxalmente, podem ser geradas ou potencializadas pelos próprios laboratórios que realizam pesquisas de duplo uso.
O foco na bactéria da peste pneumônica
A preocupação global voltou-se recentemente para a bactéria Yersinia pestis, o agente causador da peste pneumônica. Relatos não confirmados de que uma pesquisadora de um instituto na Sibéria teria morrido após contrair a doença levantaram suspeitas internacionais de um possível surto de peste pneumônica na Sibéria. O incidente reacendeu o debate sobre o desenvolvimento de programas voltados para a criação de peste pneumônica em nível de arma biológica.
Atualmente, existem evidências documentais substanciais de que pelo menos três potências globais — Estados Unidos, Israel e Rússia — realizam pesquisas avançadas de duplo uso com a Yersinia pestis.
As pesquisas genéticas em Israel
O Instituto de Israel para Pesquisa Biológica (IIBR) detalha em suas publicações oficiais estudos avançados com a bactéria da peste. Os cientistas do instituto realizaram manipulações genéticas para deletar genes associados à virulência do patógeno. A intenção descrita nas pesquisas do IIBR sobre vacinas vivas era avaliar cepas atenuadas como potenciais imunizantes contra a peste.
Embora os experimentos israelenses tenham focado na redução da patogenicidade da bactéria, e não no aumento de sua letalidade, eles demonstram a plena capacidade laboratorial de realizar engenharia genética no organismo. Outros estudos do IIBR com a Yersinia pestis buscam compreender como a infecção interfere na resposta imunológica pulmonar inicial dos pacientes, um tipo de conhecimento técnico que também possui potencial aplicação de duplo uso.
Os testes militares e comerciais nos Estados Unidos
Nos Estados Unidos, o exército mantém atividades intensas de biodefesa relacionadas à peste. Um resumo de pesquisa de 2023 do USAMRIID revelou a condução de experimentos utilizando cepas virulentas e geneticamente atenuadas em modelos animais expostos a aerossóis de peste pneumônica, com o objetivo de testar combinações de vacinas, antibióticos e anticorpos monoclonais.
Em paralelo, o mercado voltado para a prevenção da peste apresenta movimentações atípicas. Recentemente, foi divulgada a encomenda do USDA de 6 milhões de doses de uma vacina experimental contra a peste, realizada no mesmo mês em que o controverso projeto de pesquisa DEFUSE sugeriu a pulverização de vetores de vacinas em habitats de morcegos. Atualmente, mais de 21 vacinas contra a peste estão em desenvolvimento ao redor do mundo, abrangendo plataformas que incluem vacinas de DNA, mRNA, saRNA e vetores bacterianos.
O histórico e as tensões geopolíticas na Rússia
A Rússia possui um histórico documentado de pesquisas militares com a Yersinia pestis que remonta ao período soviético. De acordo com relatos do cientista Ken Alibek, que desertou do programa biológico soviético em 1992, o país manteve pesquisas com a bactéria sob o codinome "Ferment" mesmo após assinar o tratado de proibição de armas biológicas de 1972.
O atual cenário de guerra por procuração entre a Rússia e a OTAN adiciona uma camada de desconfiança mútua. Especialistas apontam que relatórios não confirmados sobre acidentes laboratoriais em território russo devem ser analisados com cautela, pois podem fazer parte de campanhas de informação estratégica ou disputas geopolíticas mais amplas.
Um alerta para a segurança global
A existência de pesquisas envolvendo a manipulação de patógenos altamente letais em múltiplos laboratórios internacionais representa um risco palpável para a segurança coletiva. A justificativa de que tais riscos são necessários para criar imunizantes e defesas contra ataques biológicos esbarra na constatação de que o próprio avanço dessas pesquisas pode atuar como um catalisador de novos perigos.
Conforme destacado no artigo publicado pelo portal The Focal Points, a proliferação dessas atividades científicas de duplo uso, associada aos interesses comerciais da indústria farmacêutica de biodefesa, exige maior transparência e fiscalização internacional independente para evitar que a busca por proteção se transforme na causa de uma nova crise global.
Abra os comentários para carregar a discussão.