Uma patente recente envolvendo o medicamento barato mebendazol voltou ao centro do debate após a circulação de um documento histórico da CIA que descreve pesquisas antigas sobre a relação entre parasitas e tumores, de acordo com um dos maiores Jornais Britanico, Daily Mail.
Uma combinação inesperada de ciência moderna e documentos da Guerra Fria reacendeu discussões na internet e entre pesquisadores sobre possíveis caminhos pouco explorados no combate ao câncer. O debate ganhou força após a divulgação de uma patente ligada ao medicamento mebendazol — um remédio conhecido há décadas para tratar infecções por vermes — e a circulação de um relatório antigo da CIA que mencionava pesquisas semelhantes ainda na década de 1950.
Embora os documentos não comprovem a existência de uma “cura escondida”, eles mostram que a hipótese de usar medicamentos antiparasitários contra tumores já vinha sendo discutida por cientistas há muito tempo.
Patente moderna volta a chamar atenção para um remédio antigo
Em 2021, pesquisadores ligados à Universidade Johns Hopkins registraram nos Estados Unidos uma patente intitulada - Patente: “Mebendazole Polymorph for Treatment and Prevention of Tumors”[Mebendazol Polimorfo para Tratamento e Prevenção de Tumores], descrevendo formulações específicas do medicamento mebendazol que poderiam ter aplicação no tratamento ou prevenção de certos tipos de câncer.
O mebendazol é um fármaco amplamente utilizado há mais de quarenta anos para combater infecções parasitárias intestinais. Ele pertence a uma classe de medicamentos conhecida como benzimidazóis, que atuam interferindo na capacidade dos parasitas de absorver nutrientes essenciais.
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Nos últimos anos, pesquisadores passaram a investigar se os mesmos mecanismos biológicos que prejudicam os parasitas também poderiam afetar células cancerígenas.
Uma forma específica do medicamento chamou atenção
A patente descreve uma versão particular da substância conhecida como “polimorfo C”. Compostos farmacêuticos podem existir em diferentes estruturas cristalinas, e essas variações podem alterar a forma como o medicamento é absorvido pelo organismo.
Segundo os pesquisadores, formulações contendo grande concentração desse polimorfo poderiam ser absorvidas de maneira mais eficiente, permitindo que maiores quantidades do medicamento circulem no corpo.
Em teoria, isso poderia aumentar a capacidade da substância de alcançar tumores e interferir no crescimento de células cancerígenas.
Resultados laboratoriais motivaram estudos
Experimentos descritos na patente apontam que testes realizados em laboratório mostraram redução do crescimento tumoral em modelos animais.
Em alguns experimentos com camundongos portadores de tumores cerebrais, os animais que receberam o medicamento apresentaram sobrevida maior em comparação com aqueles que não receberam o tratamento.
Pesquisadores acreditam que o medicamento pode atuar de diferentes maneiras contra o câncer, incluindo:
- Interferência em proteínas essenciais para a divisão celular
- Redução da formação de vasos sanguíneos que alimentam tumores
- Indução de apoptose, processo que leva células anormais à autodestruição
Esses resultados motivaram o início de estudos clínicos para avaliar se o tratamento pode ser seguro e eficaz em humanos.
O desafio dos tumores cerebrais
Um dos pontos discutidos pelos cientistas envolve a possibilidade de o medicamento ajudar no tratamento de tumores cerebrais agressivos.
Esses cânceres são particularmente difíceis de tratar devido à barreira hematoencefálica — uma estrutura protetora do organismo que impede a entrada de muitas substâncias no cérebro.
A patente sugere que certas formulações do mebendazol poderiam ser combinadas com outros medicamentos capazes de ajudar a atravessar essa barreira biológica.
Documento da CIA da Guerra Fria voltou a circular
O debate ganhou novo fôlego após um relatório da CIA produzido em 1951 voltar a circular nas redes sociais.
O documento, que foi desclassificado em 2014, resume um estudo científico soviético que analisava semelhanças metabólicas entre parasitas e células tumorais.
Segundo o relatório, pesquisadores observaram que tanto parasitas quanto tumores malignos apresentavam características biológicas semelhantes, incluindo a forma como armazenam energia nas células.
O estudo também mencionava que certos compostos químicos capazes de combater parasitas pareciam afetar o crescimento de tumores em experimentos laboratoriais.
Outrage as cancer-fighting drug in US patent echoes CIA file hidden for 60 years ➡️ https://t.co/XG8Y00Gkwy pic.twitter.com/GnnKRoVA0w
— Daily Mail (@DailyMail) March 10, 2026
Interpretações nas redes sociais geraram polêmica
Após a redescoberta do documento, algumas publicações nas redes sociais passaram a sugerir que possíveis tratamentos contra o câncer teriam sido ignorados ou ocultados ao longo das décadas.
No entanto, especialistas destacam que o relatório da CIA não afirma que o câncer seja causado por parasitas nem apresenta evidências de uma cura definitiva.
O documento apenas resume um estudo científico da época que explorava semelhanças bioquímicas entre tumores e organismos parasitários.
Pesquisa sobre reaproveitamento de medicamentos cresce
Nos últimos anos, cientistas têm investigado cada vez mais o chamado “reaproveitamento de medicamentos” — o uso de fármacos já existentes para tratar doenças diferentes daquelas para as quais foram originalmente desenvolvidos.
Essa abordagem tem atraído interesse porque medicamentos antigos geralmente já possuem histórico de segurança conhecido, o que pode acelerar etapas de pesquisa.
No caso do mebendazol, estudos continuam em andamento para avaliar seu potencial contra diferentes tipos de câncer, incluindo tumores cerebrais, câncer de pulmão, mama, pâncreas e cólon.
Um debate científico que ainda está em aberto
Embora a hipótese desperte curiosidade e debates intensos, pesquisadores ressaltam que a eficácia do medicamento contra o câncer ainda precisa ser confirmada em estudos clínicos rigorosos.
O ressurgimento do documento histórico da CIA e a patente recente mostram como ideias científicas podem atravessar décadas antes de serem plenamente exploradas.
Para especialistas, o episódio também evidencia a importância de continuar investigando caminhos alternativos na medicina, sempre com base em evidências científicas sólidas e testes clínicos cuidadosamente conduzidos.