Durante décadas, a recomendação para usar protetor solar diariamente tornou-se um dos pilares das campanhas de prevenção ao câncer de pele. No entanto, pesquisas investigativas recentes e discussões regulatórias nos Estados Unidos reacenderam questionamentos sobre a segurança de alguns filtros ultravioleta presentes em produtos amplamente comercializados.
No centro do debate está uma pergunta incômoda: o que acontece quando ingredientes projetados para proteger a pele ultrapassam sua superfície e entram na corrente sanguínea? Em 2019, a reguladora americana, equivalente a ANVISA, Food and Drug Administration (FDA) publicou um estudo que analisou a absorção sistêmica de quatro filtros químicos comuns: avobenzona, oxibenzona, octocrileno e ecamsula.
Os pesquisadores observaram que, sob condições máximas de uso — com aplicações repetidas em grande parte do corpo — os ingredientes ultrapassaram o limite estabelecido pela agência para a necessidade de testes toxicológicos adicionais.
Os níveis plasmáticos aumentaram ao longo dos dias de aplicação e permaneceram detectáveis por pelo menos uma semana após o fim do uso. A descoberta levantou preocupações entre consumidores e especialistas, mas a própria FDA ressaltou que detectar uma substância no sangue não significa, automaticamente, que ela seja insegura.
Um estudo de 2024 com mais de 470.000 pessoas descobriu que usuários frequentes de protetor solar tinham taxas de melanoma 292% mais altas do que aqueles que raramente ou nunca o usavam. As taxas de câncer de pele vêm subindo de forma constante desde meados dos anos 1970, precisamente quando os protetores solares químicos de alto FPS se tornaram populares.
Um ex-químico de formulações sem nome de uma grande empresa de protetores solares diz que os dados internos de absorção existiam anos antes de se tornarem públicos, e a decisão de não mudar para alternativas minerais foi puramente financeira.
As formulações químicas são baratas de produzir e as margens são enormes. Enquanto isso, quatro dos químicos de filtragem UV mais comuns foram descobertos em 2019 como entrando na corrente sanguínea após um único dia de uso, em concentrações excedendo o próprio limite de segurança da FDA, e a FDA permitiu que todos os produtos permanecessem nas prateleiras. - Relata a investigação publicada no X por The HighWire
Segundo a agência, os resultados indicaram a necessidade de estudos complementares para avaliar os efeitos da exposição sistêmica crônica a esses compostos. Nos anos seguintes, a FDA concluiu que diversos filtros químicos utilizados em protetores solares não possuem dados suficientes para serem classificados como "geralmente reconhecidos como seguros e eficazes".
Essa categoria regulatória não representa uma proibição, mas indica que as evidências disponíveis ainda são consideradas insuficientes para uma avaliação definitiva. Enquanto aguardam novos estudos apresentados pela indústria, os produtos continuam disponíveis no mercado norte-americano e em outros países, incluindo o Brasil.
Entre os ingredientes mais debatidos está a oxibenzona, que já foi detectada em amostras de urina, leite materno e tecido placentário em estudos de biomonitoramento. Pesquisas laboratoriais e em modelos animais sugerem potencial de interferência hormonal, mas especialistas alertam que os efeitos observados nessas condições nem sempre se reproduzem em humanos nas concentrações encontradas no uso cotidiano.
Vitamina D: o equilíbrio entre proteção e exposição solar
Outro ponto central da discussão envolve a relação entre protetores solares e a produção de vitamina D. Estudos mostram que pessoas com deficiência de vitamina D apresentam maior risco de diversas doenças, incluindo problemas ósseos e algumas condições metabólicas. No entanto, especialistas destacam que a relação entre níveis reduzidos de vitamina D e câncer é complexa e ainda está em investigação.
Embora pesquisas indiquem que o uso ideal do protetor solar possa reduzir a produção de vitamina D. Além disso, a deficiência de vitamina D pode ser corrigida por meio da alimentação, suplementação supervisionada e exposição solar moderada e individualizada. As evidências existentes apoiam que o protetor solar pode prejudicar a síntese de vitamina D3", declara uma meta-análise de 2025.
O aumento global dos casos de melanoma nas últimas décadas alimentou questionamentos sobre a eficácia das campanhas de proteção solar. Alguns estudos observacionais identificaram maior incidência de câncer de pele entre usuários frequentes de protetor solar.
Em junho de 2026, a FDA aprovou o bemotrizinol, primeiro novo ingrediente ativo para protetores solares autorizado nos Estados Unidos em mais de duas décadas. O composto já era utilizado há anos em países europeus e asiáticos e apresenta proteção de amplo espectro contra raios UVA e UVB, além de baixa absorção sistêmica.
A decisão foi recebida positivamente por dermatologistas, que há anos criticam a lentidão regulatória norte-americana em relação à aprovação de filtros mais modernos. Além do bemotrizinol, filtros minerais como óxido de zinco e dióxido de titânio continuam sendo considerados opções com bom perfil de segurança, especialmente para pessoas com pele sensível.
O consenso entre dermatologistas e autoridades de saúde é que a proteção solar continua sendo uma ferramenta importante na prevenção de danos causados pela radiação ultravioleta. Ao mesmo tempo, cresce a pressão para que fabricantes ampliem a transparência sobre a segurança de filtros químicos e invistam em formulações mais modernas.
Especialistas defendem uma abordagem equilibrada: evitar queimaduras solares, buscar exposição moderada e consciente ao sol e escolher produtos adequados ao perfil individual. Mais do que uma disputa entre protetores químicos e minerais, o debate atual revela uma demanda crescente por evidências robustas, atualização regulatória e informação de qualidade.
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