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Ozempic e Wegovy: risco de perda rara de visão acende alerta

Pesquisa associa o uso de semaglutida a um tipo raro de perda de visão irreversível. Entenda o estudo e os cuidados necessários para pacientes.

Ozempic e Wegovy: risco de perda rara de visão acende alerta

Nos últimos anos, os medicamentos da classe dos agonistas dos receptores de GLP-1, como a semaglutida — comercializada sob as marcas Ozempic e Wegovy —, transformaram o tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade de forma sem precedentes. 

No entanto, o aumento exponencial no consumo mundial dessas substâncias trouxe também uma atenção redobrada aos seus possíveis efeitos colaterais. Recentemente, a comunidade médica e científica voltou os olhos para uma possível e preocupante associação: o risco de desenvolvimento de uma forma rara e potencialmente irreversível de perda de visão.

A ABC News informou:

Dezenas de americanos entraram com processos por danos pessoais contra os fabricantes de medicamentos populares GLP-1, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, alegando que não foram devidamente avisados sobre o risco de um raro tipo de perda súbita de visão, chamada neuropatia óptica isquémica anterior não arterítica, ou NAION, ao tomar os medicamentos.

Pesquisadores têm estudado uma possível ligação entre medicamentos GLP-1 e essa condição ocular nos últimos anos, após um possível sinal de segurança ter sido reportado por um único centro de saúde em Boston em 2024, mas até agora, nenhum estudo provou que esses medicamentos são a causa.

A Novo Nordisk, fabricante de Ozempic e Wegovy, disse que leva "todos os relatos de eventos adversos muito a sério" e contestou essas alegações, afirmando: "A Novo acredita que os processos por danos pessoais movidos nos EUA são infundados e está defendendo-os vigorosamente", disse um porta-voz à ABC News.

O que é a NAION e qual sua gravidade?

Para compreender a seriedade da suspeita, é fundamental entender o que é a neuropatia óptica isquêmica anterior não-arterítica (NAION, na sigla em inglês). Frequentemente descrita de forma simplificada como um "infarto ocular", essa condição ocorre quando há uma interrupção ou redução drástica no fluxo sanguíneo para o nervo óptico, que é a estrutura responsável por transmitir os sinais visuais do olho para o cérebro.

A consequência direta dessa privação de oxigênio e nutrientes é a perda súbita, indolor e geralmente unilateral da visão. Na grande maioria dos casos, o comprometimento visual é permanente, uma vez que não existem atualmente tratamentos médicos ou cirúrgicos amplamente eficazes para reverter os danos ao nervo óptico após o estabelecimento da lesão. 

Trata-se de uma condição historicamente rara na população geral, que acomete principalmente pessoas com hipertensão crônica, diabetes ou características anatômicas específicas na estrutura do olho.

Os detalhes e números por trás do estudo

A suspeita de associação entre o uso de semaglutida e a NAION foi investigada de forma aprofundada em um estudo observacional de grande escala. A pesquisa teve início após médicos da instituição do estudo identificarem um padrão incomum em seus consultórios: em um intervalo curto de tempo, três pacientes que utilizavam medicamentos com semaglutida para perda de peso receberam o diagnóstico de NAION.

Para verificar se a ocorrência tratava-se de mera coincidência ou de um padrão estatístico, a equipe analisou os registros clínicos de um banco de dados composto milhares de pacientes atendidos ao longo de um período de seis anos. Os participantes foram divididos em dois grupos principais para análise: aqueles diagnosticados com diabetes tipo 2 e aqueles diagnosticados com sobrepeso ou obesidade.

Ao cruzar os dados, os cientistas compararam a incidência da perda de visão entre os indivíduos que utilizavam semaglutida e aqueles que faziam uso de outras terapias tradicionais para controle glicêmico ou controle de peso. Os resultados revelaram o seguinte:

  • Pacientes com diabetes tipo 2: aqueles que faziam uso de semaglutida apresentaram uma probabilidade cerca de quatro vezes maior de desenvolver NAION quando comparados aos pacientes que utilizavam outros tipos de tratamentos para o diabetes.
  • Pacientes com sobrepeso ou obesidade: a diferença foi ainda mais marcante, com os usuários de semaglutida demonstrando um risco cerca de sete vezes maior de diagnóstico da condição visual em comparação com indivíduos em tratamentos de emagrecimento que não envolviam a substância.

A análise acendeu debates importantes sobre o perfil de segurança desses medicamentos altamente populares. A necessidade de monitoramento contínuo é reforçada por publicações que analisam o risco potencial de um tipo raro de perda de visão em usuários de GLP-1, indicando que a vigilância clínica deve ser redobrada por médicos prescritores.

Correlação estatística versus causa direta

Apesar de os números parecerem alarmantes, os pesquisadores e a comunidade médica global reforçam a necessidade de cautela ao interpretar os resultados do estudo. Por se tratar de um estudo observacional, a metodologia empregada permite identificar uma associação estatística significativa, mas não possui a capacidade científica de provar, de forma definitiva, que a semaglutida foi a causa direta da perda de visão.

Existem variáveis adicionais que podem influenciar esse resultado. Por exemplo, os pacientes aos quais foi prescrita a semaglutida poderiam apresentar quadros de diabetes mais graves ou descontrolados, ou flutuações mais severas na pressão arterial e nos níveis de glicose no sangue — fatores que, de forma independente, já aumentam o risco de problemas vasculares oculares. 

Além disso, por ter sido realizado com dados de um único centro médico especializado, os resultados podem não refletir com total exatidão a realidade da população geral de usuários dessas medicações ao redor do mundo.

Posicionamento e orientações para pacientes

A Novo Nordisk, principal fabricante dos medicamentos à base de semaglutida, posicionou-se destacando que a segurança dos pacientes é sua principal prioridade e que todos os relatos de eventos adversos são monitorados rigorosamente. A empresa também apontou as limitações do caráter observacional do estudo de Harvard e ressaltou que a NAION não consta atualmente como uma reação adversa conhecida nas bulas aprovadas pelas agências reguladoras.

Para as pessoas que utilizam ou pretendem utilizar esses medicamentos, a recomendação consensual dos especialistas não é a interrupção abrupta do tratamento — decisão que pode acarretar riscos graves associados ao descontrole do diabetes ou ao ganho rápido de peso corporal. A palavra de ordem é a conscientização ativa.

Recomenda-se que qualquer paciente em terapia com agonistas de GLP-1 que perceba alterações súbitas na visão, como embaçamento, manchas escuras ou perda parcial da capacidade visual em um dos olhos, busque atendimento oftalmológico de urgência imediatamente. Além disso, antes de iniciar o uso dessas substâncias, indivíduos com histórico pessoal de problemas no nervo óptico ou retinopatia grave devem discutir de forma detalhada os riscos e benefícios com seus médicos especialistas.

Dessa forma, a indicação do medicamento deve sempre se basear em uma avaliação clínica personalizada, pesando os potenciais riscos raros contra os amplos benefícios terapêuticos comprovados. O avanço de novas investigações clínicas rigorosas será essencial para esclarecer de vez os mecanismos biológicos envolvidos e garantir que milhões de pessoas continuem se beneficiando dessas inovações com a máxima segurança possível.

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