Uma equipe de cientistas descobriu que crianças com transtorno do espectro do autismo (TEA) possuem uma "assinatura microbiana" distinta em suas fezes.
Isso revela que o intestino — frequentemente chamado de "segundo cérebro" do corpo — carrega pequenas pistas biológicas.
Esses rastros podem ajudar a diagnosticar o autismo mais cedo e com mais facilidade do que os testes comportamentais tradicionais, que costumam exigir anos de observação e filas de espera.
O poder da inteligência artificial na análise do microbioma
Esta pesquisa, publicada na revista Nature Microbiology, analisou amostras de fezes de mais de 1.600 crianças em vários países.
Utilizando aprendizado de máquina — um ramo avançado da tecnologia — os pesquisadores identificaram diferenças marcantes nos ecossistemas intestinais de crianças com e sem autismo.
O sistema desenvolvido pela equipe conseguiu sinalizar o TEA com uma precisão superior a 90%.
O trato digestivo vai muito além de um simples processador de alimentos.
Trata-se de uma metrópole microbiana movimentada, habitada por trilhões de bactérias, fungos, vírus e outros microrganismos.
Coletivamente, eles ajudam a digerir o que comemos, treinam o sistema imunológico e modulam a forma como pensamos e sentimos.
Tudo isso ocorre por meio do eixo intestino-cérebro, uma via de comunicação bidirecional constante entre esses dois órgãos.
O que diferencia o intestino de crianças com autismo?
Em crianças com TEA, essa comunidade microbiana apresenta variações visíveis.
Os pesquisadores descobriram que esses pequenos pacientes tinham níveis mais baixos de certos micróbios benéficos.
Um exemplo é o Streptococcus thermophilus, comumente encontrado no iogurte.
Também foram encontradas menores quantidades de bactérias produtoras de ácidos graxos de cadeia curta (SCFAs), moléculas conhecidas por reduzir a inflamação intestinal e apoiar a saúde neurológica.
Foram identificadas ainda falhas nas principais vias metabólicas, como aquelas encarregadas de produzir ubiquinol-7 — um antioxidante potente que protege as células contra danos.
O difosfato de tiamina, uma forma ativa da vitamina B1 essencial para a energia cerebral, também apresentou alterações.
Essas disfunções bioquímicas indicam que o sistema digestivo dessas crianças processa energia e nutrientes de maneiras singulares.
Uma visão ampliada do microbioma
Diferente de investigações anteriores que focavam apenas em bactérias, este estudo ampliou o escopo.
Os cientistas incluíram fungos, vírus e arqueias, que formam um grupo de organismos unicelulares primitivos.
Quando analisados em conjunto, o grupo mapeou 31 marcadores microbianos e funcionais que servem como indicadores confiáveis do TEA.
Outro ponto fascinante é que esses padrões microbianos se mostraram estáveis em crianças de diferentes origens na Ásia, Europa e Américas.
Isso prova que, apesar das variações culturais de dieta e ambiente, os mesmos sinais intestinais se mantêm universais.
Essa consistência torna a abordagem altamente viável para programas de triagem diagnóstica em larga escala.
Por que essa descoberta transforma o futuro?
Atualmente, o diagnóstico do autismo depende de avaliações comportamentais demoradas.
Muitas crianças só recebem um laudo definitivo após os quatro anos de idade ou mais.
Contudo, quanto mais cedo o suporte terapêutico é iniciado, melhores são os resultados a longo prazo e menor o desgaste emocional para as famílias.
Este novo método baseado em análises abrangentes de fezes traz esperança para o desenvolvimento de exames não invasivos.
Eles poderiam identificar sinais precoces em crianças bem pequenas ou até mesmo em bebês.
Embora não substitua uma avaliação diagnóstica clínica completa, o teste se posiciona como uma ferramenta de valor inestimável.
Considerações sobre dieta e desenvolvimento
As diferenças intestinais podem influenciar a forma como os sintomas se manifestam ou interagem com fatores genéticos e ambientais.
Sabe-se que muitas crianças no espectro apresentam seletividade alimentar, o que naturalmente altera o microbioma.
No entanto, mesmo após os pesquisadores ajustarem os dados para compensar a dieta, os marcadores microbianos específicos continuaram evidentes.
O sistema de codificação metabólica do intestino funciona de maneira particular no autismo.
Isso aponta para uma alteração sistêmica mais ampla capaz de influenciar o desenvolvimento neurológico e comportamental desde os primeiros anos de vida.
Artigo republicado originalmente de Health.news